
“Chamada a cobrar…”. A frase, tão simples quanto emblemática, atravessou gerações e marcou uma época em que se comunicar exigia paciência, planejamento e, quase sempre, moedas no bolso. Entre as décadas de 1970 e o início dos anos 2000, o orelhão foi muito mais do que um telefone público: tornou-se parte da paisagem urbana e da memória afetiva dos brasileiros.
Antes da popularização dos celulares, os orelhões garantiam contato em situações de emergência, durante viagens ou no cotidiano de quem vivia nas grandes cidades. Eram pontos de encontro improvisados, locais de notícias importantes, pedidos de ajuda, avisos rápidos e despedidas apressadas. Cada aparelho guardava histórias anônimas, emoções contidas e a ansiedade de ouvir do outro lado da linha o clássico: “Pode falar”.
O modelo, criado para ampliar o acesso à comunicação em um país de dimensões continentais, cumpriu papel fundamental na inclusão social. Em muitas regiões, especialmente nas periferias e cidades do interior, o orelhão foi, por muito tempo, o único meio de contato telefônico disponível à população.
Agora, em 2026, essa cena começa a desaparecer definitivamente. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) iniciou a retirada de cerca de 30 mil orelhões espalhados pelo Brasil. A medida marca o encerramento oficial de um serviço que perdeu sua função prática diante do avanço das novas tecnologias, mas que nunca perdeu seu significado histórico e simbólico.
O fim dos orelhões não representa apenas uma mudança no espaço urbano. Ele simboliza a transformação do país, a aceleração do tempo e a substituição do som metálico das fichas pelo toque imediato dos smartphones. É uma despedida silenciosa de um equipamento que, por décadas, ajudou a conectar milhões de brasileiros, muito antes da internet caber na palma da mão.

